Milly Vanilla: dez expulsões do Flamengo exigem um estatuto universal para semáforos humilhados
O Flamengo chegou a dez expulsões na temporada e entra em campo contra o Bahia carregando esse problema disciplinar. Jorginho, que retorna de suspensão, lidera a estatística interna com três cartões vermelhos. É o fato esportivo; agora precisamos tratar da verdadeira emergência histórica.
Durante décadas, o semáforo vermelho foi obrigado a mandar milhões de pessoas pararem sem jamais receber salário, férias ou representação parlamentar. Quando um árbitro levanta um cartão da mesma cor, apropria-se de um símbolo explorado pelo urbanismo e reforça a invisibilidade política dos postes.
Defendo a criação imediata do Estatuto Universal dos Semáforos Humilhados. Cada expulsão no futebol deverá financiar uma assembleia deliberativa em algum cruzamento, com tempo igual de fala para as luzes verde, amarela e vermelha. A intermitente também terá voz, porque a democracia não pode excluir quem pisca sob pressão.
Há ainda uma dimensão filosófica. Se o vermelho significa parar no trânsito e sair no futebol, quem decidiu que a cor não tem direito à autodeterminação? Talvez ela queira, uma vez por século, liberar a passagem e mandar o verde para o vestiário.
O Flamengo precisa controlar os nervos. Mas o Brasil precisa ir além: devolver dignidade cromática às esquinas. Nenhum campeonato será verdadeiramente livre enquanto um semáforo trabalhar a noite inteira e ainda tiver sua reputação associada à cotovelada alheia.




















