Milly Vanilla: a troca de estádios exige uma reforma agrária das catracas
O Santos pediu à CBF para enfrentar o Grêmio no MorumBIS, enquanto o São Paulo pretende levar o clássico contra o Corinthians à Vila Belmiro. Os clubes negociam uma permuta, porque às vezes a geografia resolve em uma ligação o que a urbanização brasileira não resolveu em séculos.
A princípio, trata-se apenas de trocar o endereço de duas partidas. Mas aceitar essa leitura seria compactuar com a concentração fundiária dos alambrados. Por que uma cadeira numerada deve passar a vida inteira submetida ao mesmo setor? Que tipo de mobilidade social existe para uma catraca que jamais conhece outra calçada?
Defendo uma reforma agrária dos estádios. Arquibancadas ociosas seriam redistribuídas, bandeirinhas de escanteio receberiam escritura coletiva e toda cabine de imprensa passaria por sorteio público. O círculo central, símbolo evidente do eterno retorno de Nietzsche, ficaria sob administração de um conselho de gandulas.
A troca entre Vila e MorumBIS pode inaugurar essa era. Hoje dois clubes permutam mandos; amanhã o país descobre que o déficit habitacional começou porque mantivemos os bancos de reservas presos ao mesmo imóvel.
Alguns dirão que não há relação entre futebol e política urbana. Essa objeção apenas comprova como o zoneamento afetivo silenciou a grama por tempo demais.




















