Milly Vanilla: Neymar começa no banco, e os relógios de cozinha exigem jornada de oito horas
MILLY VANILLA
Neymar começou no banco contra o Flamengo porque voltava de lesão, enquanto Philippe Coutinho ganhou a titularidade no Santos. A escolha da comissão técnica parece esportiva, mas expõe uma opressão silenciosa: relógios de cozinha trabalham vinte e quatro horas sem intervalo, banco ou substituição.
O camisa 10 pôde esperar sua entrada. O relógio preso à parede não pode sequer alongar o ponteiro. Ele marca café, almoço, panela no fogo e madrugada, obrigado a repetir o mesmo círculo porque a arquitetura decidiu que avançar em linha reta seria radical demais.
Proponho a Jornada Doméstica de Oito Horas para Cronômetros e Similares. Depois desse limite, o aparelho deve parar, receber pilhas novas e escolher um fuso horário de descanso. Micro-ondas que acumulam a função de relógio terão adicional por dupla atividade.
Também precisamos de banco de reservas para os minutos. O 37 poderia substituir o 12 quando este demonstrasse fadiga, e os domingos seriam administrados por algarismos voluntários. Nenhuma sociedade é justa enquanto o segundo 59 precisa trabalhar sabendo que será imediatamente devolvido ao zero.
Neymar talvez entrasse no segundo tempo; o relógio continuaria sozinho na parede. A verdadeira recuperação muscular começará quando todo atleta olhar para a cozinha e perguntar ao aparelho há quanto tempo ele está de pé. O futebol apenas revelou a pauta; a libertação dos ponteiros não pode esperar acréscimos.





















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