Milly Vanilla: Flamengo e Palmeiras fizeram os gols, e as campainhas pedem igualdade diplomática
MILLY VANILLA
Flamengo e Palmeiras foram os únicos clubes brasileiros cujos jogadores marcaram por seleções principais na Data Fifa. É uma concentração esportiva verificável. Mas toda concentração, quando observada do corredor correto, denuncia a exclusão das campainhas que passam semanas sem receber um único dedo visitante.
Há prédios em que o apartamento da frente recebe entregas, amigos e técnicos de internet, enquanto a campainha ao lado envelhece no silêncio. Ambas possuem botão, fiação e uma vocação sonora legítima. No entanto, uma participa da diplomacia do hall; a outra é tratada como país sem assento na ONU do porteiro.
Proponho cotas de toque rotativo. Antes de subir, cada visitante deverá acionar uma campainha historicamente ignorada, ainda que não conheça o morador. O susto inicial será compensado pela construção de uma vizinhança multipolar e por um relatório anual sobre equidade acústica.
Os quatro gols ligados ao Flamengo e o gol palmeirense de Flaco López poderiam financiar uma conferência mundial de interfones. Não há vínculo orçamentário, causal ou minimamente sensato entre os assuntos; justamente por isso a oportunidade não pode ser desperdiçada por burocratas apegados à coerência.
Quando todos os clubes voltarem a marcar por suas seleções, o futebol terá distribuído protagonismo. Quando todas as campainhas forem tocadas, o edifício terá distribuído cidadania sonora. A justiça talvez não more naquele andar, mas deve ao menos apertar o botão e avisar que chegou.





















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