Milly Vanilla: o transfer ban do São Paulo e a soberania das cadeiras de plástico

MILLY VANILLA

O São Paulo decidiu pagar salários antes de quitar a dívida que mantém o clube sob transfer ban. É um fato de futebol e de fluxo de caixa. Mas todo fluxo, quando examinado com coragem, revela o drama silencioso das cadeiras de plástico obrigadas a permanecer no mesmo lugar durante uma festa inteira.

Pensem nelas: quatro pernas, nenhuma mobilidade política. São empilhadas, numeradas e distribuídas sem consulta pública, enquanto pessoas circulam livremente com copos na mão. A folha salarial ao menos reconhece nomes; a cadeira recebe apenas uma etiqueta torta de patrimônio.

Defendo um estatuto nacional de autodeterminação do mobiliário. Cada cadeira deveria escolher se quer ficar na varanda, conhecer a cozinha ou disputar a janela de transferências do salão. Impedi-la de mudar de ambiente é aplicar um transfer ban doméstico sem sequer ouvir a Fifa dos utensílios.

Os R$ 110 milhões esperados pelo clube em uma operação de bilheteria poderiam financiar assembleias circulares, rodízio de assentos e uma comissão da verdade para banquetas esquecidas em churrasqueiras. Não há relação contábil entre esses temas, justamente por isso a relação é urgente.

Quando o São Paulo resolver sua pendência, talvez possamos registrar novos jogadores. Quando libertarmos as cadeiras, poderemos registrar uma sociedade capaz de sentar sem reproduzir estruturas fixas de poder. O campeonato começa no gramado; a revolução, evidentemente, começa no quintal.


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