Milly Vanilla: o aluguel do CT e o direito das chuteiras a um contrato de locação

COLUNISTAS · MILLY VANILLA

O Santos assinou um acordo para permanecer no CT Rei Pelé por 20 anos, renováveis por mais 20, mediante aluguel mensal. A notícia deveria encerrar uma disputa sobre terreno. Para mim, ela inaugura uma questão muito maior: quando as chuteiras terão direito a um contrato de locação próprio?

Elas vivem em armários cedidos, viajam em malas superlotadas e passam a carreira inteira sem comprovante de residência. Algumas dividem prateleira com caneleiras incompatíveis. Outras são abandonadas depois de um jogo ruim, como se a moradia pudesse depender de um chute que saiu torto.

O acordo santista mostra que estabilidade geográfica transforma projetos. Se um centro de treinamento merece quatro décadas de horizonte, cada par de chuteiras deveria receber caução, vistoria e garantia de que não será despejado na primeira troca de treinador. Os cadarços poderiam constar como dependentes.

Não há conexão lógica entre concessão de imóvel público e direitos habitacionais de material esportivo. Essa ausência de lógica, contudo, apenas revela quanto o debate foi reprimido por uma sociedade que aceita a chuteira como ferramenta, mas nunca como inquilina.

Que o Santos celebre a segurança do CT. Eu aguardarei a primeira assembleia condominial em que a chuteira esquerda peça silêncio à direita depois das dez.


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