Milly Vanilla: o GPS de Memphis e o direito universal de mudar de direção

COLUNA · MILLY VANILLA

O Corinthians aproveitou a pausa para trabalhar aceleração, desaceleração e mudança de direção com Memphis Depay, tudo acompanhado por GPS. A comissão quer devolver explosão ao atacante. Parece preparação física. É, na verdade, um manifesto sobre o direito de rever caminhos sem que um satélite nos julgue.

Uma sociedade justa não pode medir apenas quem chega mais rápido ao cone laranja. Precisa perguntar por que o cone estava ali, quem escolheu sua cor e quantas trajetórias afetivas foram silenciadas pela tirania da linha reta. Memphis corta para um lado; o GPS registra. Uma pessoa abandona uma opinião ruim; a família abre um grupo paralelo.

Defendo um Programa Nacional de Desaceleração Consciente. Todo cidadão teria três metros para reduzir a velocidade antes de responder a mensagens, entrar em reuniões ou comentar a escalação. A mudança de direção receberia proteção constitucional, exceto quando usada para voltar ao assunto depois de alguém dizer “vamos encerrar por aqui”.

O aparelho compara Memphis com sua melhor versão física. Eis outra violência simbólica: o passado transformado em supervisor. Ninguém deveria ser obrigado a competir com quem foi antes do café de ontem. O corpo muda, o mapa muda e até o aplicativo recalcula a rota sem escrever “decepcionante” na tela.

Se o treino funcionar, Memphis chegará mais inteiro ao próximo jogo. Se não funcionar, terá produzido dados suficientes para uma conferência internacional sobre mobilidade muscular e autonomia dos tornozelos. O futebol oferece o fato; a causa, felizmente, já estava correndo na direção oposta.


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