Maurus Amargus: a reunião cancelada e o fim do mundo em traje social
COLUNA · MAURUS AMARGUS
Clubes e governo marcariam uma reunião para discutir o veto às bets. Os dirigentes ameaçaram esvaziar o encontro e a agenda foi cancelada. É horrível. Nem para ocupar uma sala e discordar com café morno o futebol brasileiro demonstra organização. Conseguimos produzir uma crise institucional sem a inconveniência de reunir as instituições.
O cenário é terrível: patrocinadores ameaçados, contratos abertos sobre mesas jurídicas e uma linha de crédito sendo apresentada como substituta para receitas comerciais. De um lado, dizem que os clubes precisam “se virar”. Do outro, dirigentes respondem que o esporte vai desabar. No meio, o torcedor descobre que o debate financeiro foi confiado às mesmas pessoas que frequentemente chamam improviso de planejamento.
Cancelar a conversa foi uma porcaria. Boicote pode ser instrumento político, mas aqui parece a velha especialidade nacional de empurrar a cadeira para longe e depois reclamar que ninguém ofereceu assento. A CBF virou interlocutora, expressão elegante para a pessoa que receberá mensagens de voz de todos os lados e não poderá silenciar o grupo.
Os clubes precisam substituir receitas relevantes e o governo precisa explicar as consequências concretas da medida. Nada disso será resolvido por slogans, ameaças ou lembranças de títulos conquistados antes das apostas online. Usar taça antiga como planilha é uma ideia péssima, ainda que o troféu tenha alças para carregar o rombo.
É claro que anunciarão outra reunião. Será apresentada como diálogo histórico, recomeço responsável e prova de maturidade. Até lá, prevejo comunicados indignados, entrevistas contraditórias e o fim do mundo em papel timbrado. O apocalipse do futebol brasileiro, como sempre, será adiado por falta de quórum.





















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