Milly Vanilla: dezesseis finais e o direito das meias a uma vida sem pares
MILLY VANILLA
O Palmeiras pode chegar a 16 jogos até o fim da temporada, caso avance nas duas copas que disputa além do Brasileiro. Li essa projeção e compreendi o problema central da nossa sociedade: a perseguição sistemática às meias que decidem viver sozinhas.
É evidente para mim que o ritual de separar as meias em pares condiciona a humanidade a exigir um desfecho. Uma final entrega um vencedor; uma gaveta entrega duas peças iguais. Quem estabeleceu que a meia cinza deseja passar a existência ao lado da outra cinza? Certamente não a meia, à qual jamais foi oferecido um formulário.
Os dez compromissos restantes do Brasileiro são concretos; os demais dependem de classificação. Já a meia desaparecida atrás da máquina não depende de ninguém. Exerce a liberdade radical de não constar na relação. Enquanto o futebol quer chegar à decisão, ela escolheu não comparecer à audiência.
Proponho uma carta de direitos têxteis. Cada peça poderá circular sozinha, combinar-se por afinidade provisória ou simplesmente observar o jogo da borda do cesto. O movimento começará com uma manifestação silenciosa, porque meias não possuem cordas vocais e porque a vizinha já reclamou do barulho.
Alguém dirá que nada disso explica as chances do Palmeiras. Essa pessoa ainda está presa à ditadura do assunto. Eu, ao contrário, terminei a coluna usando uma meia verde e uma azul. Não sei se o time chegará às finais, mas meus tornozelos acabaram de conquistar autonomia.





















Deixe um comentário