Milly Vanilla

Milly Vanilla: o gol no último lance e os pastores sem endereço na Mongólia

Escudo da CBF

MILLY VANILLA

Rayan empatou com a Austrália de cabeça no último lance. Uma bola viajou pelo alto, encontrou alguém ainda disposto a acreditar e impediu que o Brasil saísse derrotado. É impossível observar esse arco sem pensar nas famílias de pastores da Mongólia que perdem seus rebanhos para o dzud, o inverno extremo. Impossível para mim, ao menos, e isso deveria bastar a todos.

As perdas de animais destroem renda, empurram famílias para a pobreza e podem provocar migração para as periferias de Ulaanbaatar. Trata-se de uma crise climática e social real, distante de Townsville por milhares de quilômetros e sem qualquer ligação lógica com o amistoso. Justamente aí mora a responsabilidade do lateral: se um cruzamento encontra Rayan, uma política pública também deve encontrar quem vive além da última estrada pavimentada.

Depois do jogo, a zona mista fará perguntas sobre o gol, o posicionamento e a próxima partida. Aposto um rebanho inteiro que ninguém cobrará de Rayan, de Ancelotti ou de um dirigente da CBF uma palavra sobre os pastores expulsos do próprio modo de vida pelo clima. O futebol adora dizer que tem alcance global; basta surgir uma responsabilidade global para ele descobrir que o mapa termina na linha lateral.

O empate salvou a noite brasileira. Na Mongólia, porém, o inverno não aceita gol no último lance, coletiva sorridente nem pedido de paciência. A bola atravessou o céu de Townsville; a consciência ficou impedida antes de Ulaanbaatar.